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  • Foto do escritorLauro Criativa

O Folclore



Uma fantástica imagem de um mundo antigo que atua em nossas vidas. Mundo esse, que marcado por viagens, constâncias e permanências, vem com atributos que visam revivificar os saberes e práticas ancestrais, ameaçados pelos fantasmas do esquecimento, frutos de processos de desmantelamento de comunidades, de práticas e saberes que, no entanto, readaptando-se em locais outros, resistem e insistem em permanecer revigorados em existências coletivizadas, compartilhadas. Seus horizontes, muitas vezes modificados pela dinâmica social, inerentes às comunidades humanas, postas em marcha, teimam em existir no imaginário, mas também, na forma em que vivem os indivíduos.





Surpreendente mundo que, ao agasalhar-se em sutis transformações, vai impondo seu ritmo, definindo características, delimitando dimensões e possibilitando aos homens, criar, reproduzir, agir, estabelecer relações em universos restritos e fragmentados que compõem a cultura em suas singulares belezas e unicidades. Para Carlos Rodrigues Brandão, a cultura do Folclore não é apenas “culturalmente” ativa. Ela é um codificador de identidade, de reprodução de símbolos que contemplam um modo de vida de classe, a existência dos saberes e dos fazeres que habilitam a maestria dos seus agentes, a partir do domínio da integralidade dos elementos que compõem o fato folclórico.




Findas as observações a respeito dos aspectos técnicos, que para muitos desenvolvem-se em terreno árido, busquemos agora, em uma outra jornada, a fertilidade do simbolismo das terras baianas, onde o encanto, a magia e o fascínio, expressados pelas manifestações folclóricas, possibilitam-nos observar e participar das ricas experiências trazidas de um mundo antigo, repleto de mitos, lendas, contos, danças, culinárias, músicas e festas religiosas de caráter popular, para esse mundo novo, cheio de desafios e ameaças, mas que acena com esperança para um futuro mais identitário, apesar da cultura de massa e dos esforços envidados pelo capitalismo para conseguir a tão almejada padronização dos seres humanos que são vistos como mera mercadoria.





Restringidas as observações folclóricas à Bahia, esse espaço sagrado (para nós) em que temos o privilégio de habitar, e que existe em todos que adotam a baianidade como estilo de vida, pode-se destacar a Bahia do axé, que respira folclore e traz em si, traços marcantes e singulares, legado cheio de misticismo e alegria contagiante, fruto do entrelaçamento das culturas, indígenas, europeias e africanas, resultando, dessa fantástica mistura, o jeito baiano de ser. A Bahia respira tradição, folclore e misticismo. A magia de sua arte, músicas, festas de largo, de louvores, os mercados populares, as rodas de samba, de capoeira e terreiros de candomblés, estão a todo momento a nos lembrar que suas existências, só puderam ser possíveis, a partir daquelas contribuições históricas.




É forte a contribuição indígena em nossas tradições. Seu legado estende-se, desde os hábitos de higiene, passando pela construção dos aspectos materiais de existência, para, no seu apogeu, atingir os aspectos místicos, elementos comuns em todas as sociedades primitivas. Ela nos proporcionou diversas espécies de milho, a mandioca, o aipim, a batata doce, alimentos importantes que compõem o prato do baiano e, também dos nordestinos. Para cozer os alimentos, armazená-los e acondicionar a água potável utilizava-se da cerâmica para fabricação de panelas, potes e moringues, utensílios domésticos de ampla utilização até os dias atuais. Legou ao velho continente, o tabaco, hoje mundialmente, conhecido por suas propriedades relaxantes, mas nocivas à saúde. A prática da cura pela utilização de ervas, altamente difundida entre nós e, por fim, um sistema de crenças, rico e variado, baseado no dualismo bem e mal, representados por Tupã, o grande criador e, Anhangá, deus das regiões infernais, o grande inimigo de Tupã.





As culturas negras pertencentes a diversas sociedades africanas, foram transplantadas para o Brasil, trazidas por negros escravizados de diversos povos, e compunham um imenso contingente multicultural. Saudosos, os negros choravam as agruras da vida cativa, cantando músicas coletivas, saídas da alma, que ecoam pelos séculos sem fim. A chula, lundu, acalanto, cantos de candomblés e o samba são exemplos de estilos musicais que marcaram irremediavelmente a história da música brasileira. Constituindo aspecto importante das tradições africanas, as religiões sofreram alterações chamadas de sincretismo, por consequência da catequese, ensino religioso católico, impostos pelos jesuítas a negros e índios. Por ter origem em diversas fontes, as tradições religiosas dos negros, não são todas iguais, variando de acordo com a região. Os Candomblés da Bahia e, também alguns Xangôs do Nordeste são de origem sudanesa, trazidos pelos nagôs (ou iorubas) e os jejes (ou daomeianos).




Por outro lado, o folclore constitui um tema vasto, não podendo ser abarcado em seu amplo espectro, sob pena de estar pisando em areia movediça e incorrer em diversos e graves erros. Visando continuar na estrada principal e, buscando tomar ação de forma generalizada, mas segura, decidi seguir a sinalização, tocando em frente, mesmo resistindo à tentação de parar para saborear os contos e cantos, as lendas e mitos, embalado por bela cantiga de ninar, iniciada em tempos remotos, que, no entanto, continua a povoar os sonhos e a imaginação com coisas belas. Se a superficialidade foi a tônica necessária para o desenvolvimento desse trabalho, o amor em sua profundidade, foi o elemento inspirador para que ele fosse realizado. Salve o Folclore.





Professor Airton Santos, reside em Ipitanga, Lauro de Freitas/Ba.




Esse trabalho é dedicado a Regina Dantas e Nicole Leal por seus carinhos e cuidados nos momentos mais difíceis de minha vida; ao me ensinarem a olhar o mundo sob uma perspectiva mais colorida, acabei encontrando o pote de ouro no fim do arco-íris.


Pelas discussões, provocações filosóficas e estímulos, Peri Rudá é parte essencial nesse trabalho contínuo.

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