
Na fila da verdade

A fila andava devagar. Devagar como andam os reencontros quando há distâncias para atravessar.
— Rapaz... é você?
Era.
Depois de tantos anos, ali estavam os dois, na mesma escola, no mesmo corredor, esperando a mesma urna e carregando escolhas diferentes.
— Vai de Lula?
— Vou.
O outro sorriu de lado.
— Então nem pergunte o meu.
— Bolsonaro?
— Bolsonaro.
Silêncio.
Por um instante, quase vieram à boca as palavras que aprenderam a jogar uns contra os outros: comunista, fascista, petista, bolsonarista.
Mas antes dos rótulos havia os dois. Já tinham dividido cerveja, carona, futebol, aperto, gargalhadas.
— Quando foi que a gente deixou de conversar?
O outro pensou um pouco.
— Acho que quando começamos a querer responder antes de escutar.
A fila avançou um passo.
— Não vou tentar mudar seu voto.
— Ainda bem.
Riram.
— Mas posso lhe dizer o que eu procuro quando voto?
— Diga.
Ele olhou adiante. Uma senhora apoiava-se no braço de uma moça. Mais à frente, um homem segurava pela mão um menino inquieto.
— Eu queria um país onde a gente pudesse discordar sem precisar se odiar.
— Isso eu também queria.
— Já seria um começo.
A fila avançou.
O menino perguntou alguma coisa ao pai. O pai respondeu baixinho. Ele insistiu. O pai procurou nos bolsos e não encontrou nada.
— Está vendo o menino?
— Estou.
— Eu penso muito nisso.
— Em quê?
— Que algumas urgências não podem esperar a gente terminar nossas brigas.
O amigo olhou novamente.
— Fome?
— Fome também.
Ficaram calados.
— Se alguém tiver de chegar primeiro...
— Quem?
— Quem não pode esperar.
O outro assentiu devagar.
— Quem já comeu consegue discutir o cardápio.
— E quem não comeu...
— Precisa comer.
A fila andou mais um pouco.
Lá fora, uma árvore antiga fazia sombra sobre o portão da escola.
— Está vendo aquela árvore?
— Estou.
— Quantas eleições será que ela já viu?
— Muitas.
— E continua aí.
O outro olhou para fora.
— Dando sombra pra gente.
— Sem perguntar em quem a gente vota.
Sorriram.
Por um instante, ficaram olhando as folhas se moverem com o vento.
— Engraçado...
— O quê?
— A gente fala tanto do país que quer deixar para os filhos e quase nunca pergunta que país vai deixar para eles.
A fila avançou.
— Tem coisa que não se pode deixar de lado.
— Como aquela árvore?
— Como a água.
— O ar.
— A terra.
O outro tornou a olhar para o menino.
— O futuro.
— O futuro.
Agora faltavam poucas pessoas.
— Sabe do que eu sinto falta?
— De quê?
— De mão estendida.
— De político?
— Também. Mas não só. Estou falando da gente. De quem conseguiu subir um pouco e não deve puxar a escada. De quem olha para trás e percebe que alguém ainda está subindo.
O amigo ficou quieto.
— É isso que você vê no Lula?
Ele respirou antes de responder.
— É uma das coisas que eu busco na minha escolha.
— Eu vejo diferente.
— Eu sei.
— Tenho minhas razões.
— E eu tenho as minhas.
A fila avançou outra vez.
— Olha nós dois...
— O quê?
— Conversando de política sem querer dar um soco um no outro.
— Fale por você.
Os dois se olharam e riram.
Riram como antigamente. Talvez fosse também disso que sentiam falta.
Chegou a vez do primeiro. Antes de entrar, ele se virou.
— Amanhã isso aqui acaba.
— A eleição?
— A fila.
— E a eleição.
— Mas a gente continua.
O outro concordou.
— No mesmo país.
— Na mesma rua.
— Com os mesmos problemas.
— E provavelmente as mesmas reclamações.
Riram outra vez.
E se abraçaram.
Não porque concordassem. Não porque um tivesse vencido o outro. Mas porque, por alguns minutos, conseguiram afastar os nomes, as cores, os rótulos e se reconhecer.
Um entrou para votar. O outro permaneceu na fila.
À frente dele, o menino ainda segurava a mão do pai. Lá fora, a árvore continuava fazendo sombra.
E ele ficou pensando na fome, na árvore, na mão, no amigo.
Então a fila andou.
Era a sua vez.
Entrou.
Cada um ainda teria de fazer a própria escolha.
Depois, a urna se fecharia, a fila desapareceria, as faixas seriam recolhidas, as ruas voltariam a ter outros assuntos.
Mas eles continuariam ali.
Diferentes. Vizinhos. Amigos, talvez, outra vez.
E quem sabe não fosse preciso esperar mais uma eleição para sentar à mesma mesa, rir antes do fim da história, discordar sem partir, estender a mão e reaprender, mais amiúde, a acolher uns aos outros.
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Sempre foi sobre gente que se respeita nunca sobre gente que se odeiam por terem pontos de vistas diferentes.
Muito bom!!! 😢🙌