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Na fila da verdade

Foto do escritor: Peri Rudá
Peri Rudá
29 de set.
3 min de leitura

A fila andava devagar. Devagar como andam os reencontros quando há distâncias para atravessar.

— Rapaz... é você?

Era.

Depois de tantos anos, ali estavam os dois, na mesma escola, no mesmo corredor, esperando a mesma urna e carregando escolhas diferentes.

— Vai de Lula?

— Vou.

O outro sorriu de lado.

— Então nem pergunte o meu.

— Bolsonaro?

— Bolsonaro.

Silêncio.

Por um instante, quase vieram à boca as palavras que aprenderam a jogar uns contra os outros: comunista, fascista, petista, bolsonarista.

Mas antes dos rótulos havia os dois. Já tinham dividido cerveja, carona, futebol, aperto, gargalhadas.

— Quando foi que a gente deixou de conversar?

O outro pensou um pouco.

— Acho que quando começamos a querer responder antes de escutar.

A fila avançou um passo.

— Não vou tentar mudar seu voto.

— Ainda bem.

Riram.

— Mas posso lhe dizer o que eu procuro quando voto?

— Diga.

Ele olhou adiante. Uma senhora apoiava-se no braço de uma moça. Mais à frente, um homem segurava pela mão um menino inquieto.

— Eu queria um país onde a gente pudesse discordar sem precisar se odiar.

— Isso eu também queria.

— Já seria um começo.

A fila avançou.

O menino perguntou alguma coisa ao pai. O pai respondeu baixinho. Ele insistiu. O pai procurou nos bolsos e não encontrou nada.

— Está vendo o menino?

— Estou.

— Eu penso muito nisso.

— Em quê?

— Que algumas urgências não podem esperar a gente terminar nossas brigas.

O amigo olhou novamente.

— Fome?

— Fome também.

Ficaram calados.

— Se alguém tiver de chegar primeiro...

— Quem?

— Quem não pode esperar.

O outro assentiu devagar.

— Quem já comeu consegue discutir o cardápio.

— E quem não comeu...

— Precisa comer.

A fila andou mais um pouco.

Lá fora, uma árvore antiga fazia sombra sobre o portão da escola.

— Está vendo aquela árvore?

— Estou.

— Quantas eleições será que ela já viu?

— Muitas.

— E continua aí.

O outro olhou para fora.

— Dando sombra pra gente.

— Sem perguntar em quem a gente vota.

Sorriram.

Por um instante, ficaram olhando as folhas se moverem com o vento.

— Engraçado...

— O quê?

— A gente fala tanto do país que quer deixar para os filhos e quase nunca pergunta que país vai deixar para eles.

A fila avançou.

— Tem coisa que não se pode deixar de lado.

— Como aquela árvore?

— Como a água.

— O ar.

— A terra.

O outro tornou a olhar para o menino.

— O futuro.

— O futuro.

Agora faltavam poucas pessoas.

— Sabe do que eu sinto falta?

— De quê?

— De mão estendida.

— De político?

— Também. Mas não só. Estou falando da gente. De quem conseguiu subir um pouco e não deve puxar a escada. De quem olha para trás e percebe que alguém ainda está subindo.

O amigo ficou quieto.

— É isso que você vê no Lula?

Ele respirou antes de responder.

— É uma das coisas que eu busco na minha escolha.

— Eu vejo diferente.

— Eu sei.

— Tenho minhas razões.

— E eu tenho as minhas.

A fila avançou outra vez.

— Olha nós dois...

— O quê?

— Conversando de política sem querer dar um soco um no outro.

— Fale por você.

Os dois se olharam e riram.

Riram como antigamente. Talvez fosse também disso que sentiam falta.

Chegou a vez do primeiro. Antes de entrar, ele se virou.

— Amanhã isso aqui acaba.

— A eleição?

— A fila.

— E a eleição.

— Mas a gente continua.

O outro concordou.

— No mesmo país.

— Na mesma rua.

— Com os mesmos problemas.

— E provavelmente as mesmas reclamações.

Riram outra vez.

E se abraçaram.

Não porque concordassem. Não porque um tivesse vencido o outro. Mas porque, por alguns minutos, conseguiram afastar os nomes, as cores, os rótulos e se reconhecer.

Um entrou para votar. O outro permaneceu na fila.

À frente dele, o menino ainda segurava a mão do pai. Lá fora, a árvore continuava fazendo sombra.

E ele ficou pensando na fome, na árvore, na mão, no amigo.

Então a fila andou.

Era a sua vez.

Entrou.

Cada um ainda teria de fazer a própria escolha.

Depois, a urna se fecharia, a fila desapareceria, as faixas seriam recolhidas, as ruas voltariam a ter outros assuntos.

Mas eles continuariam ali.

Diferentes. Vizinhos. Amigos, talvez, outra vez.

E quem sabe não fosse preciso esperar mais uma eleição para sentar à mesma mesa, rir antes do fim da história, discordar sem partir, estender a mão e reaprender, mais amiúde, a acolher uns aos outros.

 
 
 

2 comentários

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Convidado:
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Sempre foi sobre gente que se respeita nunca sobre gente que se odeiam por terem pontos de vistas diferentes.

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Rickson Bala
30 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito bom!!! 😢🙌

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