A história de Lauro de Freitas precisa entrar na escola e permanecer na memória


Preservar a memória ipitanguense é um compromisso com a educação, a identidade cultural e o futuro do município.
Uma cidade não se constrói apenas com ruas, prédios e equipamentos públicos. Sua existência também se expressa na memória de seus habitantes, nas experiências das gerações que a formaram, nas manifestações culturais, nas relações sociais e nos acontecimentos que transformaram seu território ao longo dos séculos.
Em Lauro de Freitas, antiga Santo Amaro de Ipitanga, a preservação dessa memória constitui um desafio que precisa ser assumido como política pública permanente. Afinal, como esperar que as futuras gerações preservem uma história que pouco conhecem?
O jornalista e conselheiro municipal de cultura Márcio Wesley vem chamando atenção para essa realidade. Em artigos publicados entre 2025 e 2026, questiona a ausência de equipamentos e políticas permanentes de preservação, a perda de referências históricas e o desconhecimento da população sobre acontecimentos fundamentais da formação do município.

Em setembro de 2026, ao retomar uma reflexão publicada dez anos antes, o jornalista constatou a persistência dos mesmos problemas. A passagem do tempo, portanto, não foi acompanhada das transformações necessárias à proteção do patrimônio histórico e cultural ipitanguense.
Essas manifestações revelam uma questão que ultrapassa a conservação de edifícios e documentos. Trata-se da necessidade de estabelecer condições para que os habitantes de Lauro de Freitas conheçam, compreendam e participem da construção da memória coletiva de seu território.
A história local como instrumento de formação cidadã
O historiador e professor Diego de Jesus Copque, no artigo O ensino da história local em Camaçari, destaca a importância de trabalhar a história do município a partir da realidade dos estudantes, utilizando metodologias que estimulem pesquisas, experiências participativas e o reconhecimento de suas raízes históricas, étnicas e culturais.

Sua reflexão oferece um caminho igualmente relevante para Lauro de Freitas.
A história local não deve ser compreendida como uma sucessão de nomes, datas e homenagens oficiais. Seu ensino deve permitir que os estudantes investiguem o território onde vivem, conheçam as condições de vida das gerações anteriores e compreendam as relações sociais, políticas, econômicas e culturais que contribuíram para a formação da sociedade atual.
Isso significa estudar tanto as realizações quanto os conflitos e as contradições da história municipal, valorizando a participação de indígenas, africanos escravizados e seus descendentes, trabalhadores, mulheres, comunidades tradicionais e outros grupos frequentemente pouco representados nas narrativas oficiais.
Ao pesquisar a história de seu bairro, de sua rua, de uma antiga comunidade ou de uma manifestação cultural, o estudante passa a perceber que a história não é algo distante, restrito aos livros ou aos grandes personagens nacionais. Ela também está presente em sua família, em sua comunidade e no espaço em que convive diariamente.
Esse processo fortalece o pertencimento, a consciência crítica e a responsabilidade coletiva pela preservação do patrimônio cultural.
O território ipitanguense como espaço de investigação
Lauro de Freitas reúne condições históricas especialmente importantes para o desenvolvimento de uma proposta educacional dessa natureza.
A antiga Freguesia de Santo Amaro de Ipitanga, a presença dos povos originários, a ocupação colonial, os engenhos, o trabalho de africanos escravizados, as relações com Salvador e com o Recôncavo, os caminhos de circulação de mercadorias e pessoas e a participação regional nas lutas pela Independência da Bahia constituem temas que merecem investigação sistemática.
Também precisam ser estudadas as transformações territoriais decorrentes da emancipação política de 1962, as controvérsias relacionadas à mudança do nome do município, a expansão urbana, a formação dos bairros e as consequências sociais e ambientais desse crescimento.
O Rio Ipitanga, o Rio Joanes, a Igreja Matriz de Santo Amaro de Ipitanga, o Centro Histórico, as comunidades tradicionais, as manifestações religiosas, a cultura popular, os saberes artesanais e as memórias dos moradores mais antigos oferecem inúmeras possibilidades de investigação escolar.
O estudo de localidades como Ipitanga, Portão, Itinga, Areia Branca, Vila Praiana, Quingoma, Jambeiro e outras comunidades poderá contribuir para a compreensão das diferentes experiências históricas que compõem o município.
Essas investigações devem se apoiar em documentos, registros cartográficos, pesquisas acadêmicas, fotografias, testemunhos orais e outras fontes, examinados criticamente. A tradição oral, fundamental para a preservação da memória coletiva, deve dialogar com as demais evidências, sem que uma única narrativa seja apresentada como verdade absoluta.
O ensino da história de Lauro de Freitas deve, portanto, ser também um exercício de pesquisa e produção de conhecimento.
Camaçari demonstra um caminho legislativo possível
Em 7 de novembro de 2019, o município de Camaçari sancionou a Lei Municipal nº 1.600/2019, que determinou a inserção da história municipal no conteúdo programático do Ensino Fundamental, do 1º ao 9º ano, nas redes pública e privada de ensino.
A legislação estabelece, ainda, a disponibilização de recursos midiáticos, didáticos e paradidáticos, o desenvolvimento de atividades de valorização da história do município e a possibilidade de trabalho interdisciplinar, contemplando também a literatura produzida por autores locais.
Trata-se de uma referência concreta que merece ser examinada pela Câmara Municipal de Lauro de Freitas.
Entretanto, uma legislação dessa natureza precisa ser acompanhada de instrumentos que assegurem sua implementação. A simples inclusão formal de conteúdos no currículo não garante que eles sejam efetivamente trabalhados em sala de aula.
É indispensável oferecer formação aos professores, materiais didáticos qualificados, acesso às fontes históricas, orientação pedagógica e condições para o desenvolvimento de projetos de pesquisa.
Lauro de Freitas já possui obrigações legais
A preservação da memória histórica e cultural de Lauro de Freitas não depende exclusivamente da criação de novas leis. A própria Lei Orgânica municipal, em seus artigos 206, 207 e 211, estabelece expressamente responsabilidades relacionadas à valorização da história local, ao funcionamento de museu, biblioteca e arquivo público e à implantação de um museu destinado à preservação da memória cultural e histórica.
No campo educacional, a Portaria SEMED nº 114/2024 homologou a Resolução CME nº 006/2024, que aprovou o Documento Curricular Referencial de Lauro de Freitas. Esse documento reconhece a história local como instrumento fundamental para a compreensão da história brasileira, prevê formação continuada dos professores e estabelece o início de sua implementação no segundo semestre de 2025.
Diante desses dispositivos, torna-se indispensável verificar o que efetivamente foi implementado e exigir o cumprimento das obrigações já estabelecidas, sem prejuízo da aprovação de legislação específica que assegure a continuidade, os recursos e os mecanismos de acompanhamento dessas políticas públicas.
Da defesa da memória às ações concretas
A preservação da memória histórica de Lauro de Freitas exige medidas articuladas e permanentes.
Uma das mais importantes é assegurar o ensino sistemático da história municipal na Educação Básica, respeitadas as competências dos sistemas de ensino, de forma interdisciplinar e adequada às diferentes faixas etárias.
Paralelamente, é necessária a elaboração de materiais didáticos e paradidáticos sobre a história ipitanguense, produzidos com a participação de pesquisadores, professores, universidades, instituições culturais e representantes das comunidades.
A constituição de um acervo documental acessível, a implantação dos equipamentos culturais previstos na Lei Orgânica, a identificação e proteção de bens de interesse histórico e o desenvolvimento de programas de educação patrimonial são igualmente indispensáveis.
As escolas podem contribuir diretamente com esse esforço por meio de pesquisas de campo, entrevistas com moradores, levantamento de fotografias e documentos, visitas orientadas, exposições, publicações e projetos de história oral.
Essas experiências, quando organizadas com critérios de pesquisa, preservação e acesso público, poderão alimentar um acervo coletivo de memória municipal.
Também é necessário estabelecer mecanismos de acompanhamento das políticas públicas, com metas, responsabilidades institucionais, previsão orçamentária e participação social.
A Câmara Municipal, o Poder Executivo, os conselhos municipais, as instituições de ensino e as organizações culturais têm responsabilidades distintas, porém complementares, nesse processo.
Uma lei municipal para transformar compromisso em realidade
]A experiência legislativa de Camaçari demonstra a viabilidade de uma iniciativa específica para o ensino da história local.
Em Lauro de Freitas, a proposição de uma lei municipal poderá fortalecer o que já está previsto na legislação educacional e cultural, estabelecendo um programa permanente de ensino, pesquisa e valorização da história e da memória ipitanguense.
Tal iniciativa deverá ser construída com participação do Conselho Municipal de Educação, do Conselho Municipal de Política Cultural, dos profissionais da educação, dos pesquisadores e das organizações da sociedade civil.
Mais do que instituir obrigações genéricas, a legislação deverá estimular a produção de conhecimento, o acesso às fontes históricas, a formação docente e a integração entre educação e patrimônio cultural.
O objetivo não é criar uma história oficial e incontestável do município, mas garantir que sua trajetória possa ser pesquisada, ensinada, debatida e permanentemente revisitada à luz das evidências históricas.
Preservar a memória é construir o futuro
Lauro de Freitas não pode permitir que a memória de sua formação histórica continue ameaçada pela perda de documentos, pela descaracterização de espaços e pelo desconhecimento de sua própria população.
A conservação de seu patrimônio material e imaterial precisa caminhar junto com a formação de cidadãos capazes de compreender o valor dessa herança.
A escola ocupa uma posição decisiva nesse processo.
É nela que o conhecimento sistematizado sobre o território pode alcançar sucessivas gerações, estimulando o sentimento de pertencimento sem abandonar a reflexão crítica sobre as desigualdades, os conflitos e as transformações históricas.
Assim, a defesa da memória ipitanguense deve se traduzir em uma agenda pública de compromissos concretos: pesquisar, documentar, preservar, ensinar e compartilhar.
A história de Lauro de Freitas precisa estar nos livros, nos arquivos, nos museus, nas comunidades e, especialmente, nas salas de aula.
Porque preservar a memória não significa apenas proteger o passado. Significa oferecer às novas gerações condições para compreender o presente e participar conscientemente da construção de seu futuro.
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