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  • Foto do escritorLauro Criativa

O SAMBA DE RODA DO RECÔNCAVO BAIANO

Subitamente batuques vigorosos surgem em ondas sonoras, ninguém sabe ao certo de onde vêm; chegam em fluxos e anunciam em brisas displicentes, um convite sussurrado por cadenciadas vozes, que em coro entoam cantos de Orixás. Sons que reverberam em tambores falantes, irradiam alegria, magia e mistérios. Chamados antigos que ecoam na alma, aparecem sem cerimônias como visitas de velhos amigos, cheios de intimidades e afetos. Eles chegam, vão se instalando em nossas vidas, trazendo confiança e sensação de bem-estar, dizem uns; apelos significativos, cheios de mística, sons e sentidos só captados pelos escolhidos e, sem qualquer sentido lógico, dizem outros. Sendo a primeira, a segunda ou, até mesmo, uma outra interpretação, inegáveis são as altas vibrações energéticas que escapam da racionalidade dos envolvidos, pois se encontram absorvidos por atmosfera envolvente e cheia de muito encantamento.





É nessa atmosfera que usa seu magnetismo, porque sabe que atrai, forma admiradores, adeptos, seguidores e prosélitos. Sua poética e expressão musical tem forte contribuição para a cultura brasileira. Mas, nem sempre foi assim. Sua gênese, infância e juventude são recheadas de aventuras, perseguições, criminalizações, discriminações e também muita resistência. Uma das quais é a resistência cultural, que se configura como estratégia política e proporciona experiências importantes para populações histórica e sistematicamente subalternizadas. Tais experiências acabaram despertando o medo da elite, a ponto de usarem o rigor da lei e a repressão policial para combatê-las, ao perceberem o fracasso dos seus antigos métodos. Lançaram, então, um método novo, cuja eficácia tem trazido ótimos resultados e, até hoje em pleno funcionamento, constitui em uma das ramificações do capitalismo moderno: a apropriação cultural, forma de “colonizar” aquilo que não foram capazes de destruir literalmente. Nesse caso, o inimigo demonstrava ser perigoso, embora não fosse violento, mas seu poder de sedução preocupava sobremaneira os projetos de dominação de uma elite intransigente, que não faz concessões.






Seu universo é fascinante e constituído de múltiplas dimensões, daí a necessidade de abordagem específica para o nosso propósito, ante vasto conteúdo. Ao abordar as dimensões política e cultural, não significa hierarquiza-las em detrimento das demais, elas serão mais úteis para nosso propósito. Feitas as considerações pertinentes, podemos continuar nossa viagem. Diz um ditado popular, que baiano não nasce: estreia. Filho da Bahia e estreando no Recôncavo Baiano, região que contorna a Baía de Todos os Santos, território de grande concentração de descendentes diretos de negros escravizados, é uma invenção histórica e configuração cultural, oriundos da aventura colonial portuguesa, para infortúnio de muitos africanos e indígenas. Trata-se de uma unidade regional que foi concebida e é situada por dentro da história dos engenhos de cana, da escravidão e da indústria açucareira no Brasil. Tamanha predominância negra faz com que o Recôncavo resguarde práticas culturais que são a um só tempo, religiosas e festivas.





Uma dessas práticas, vistas como festa ou forma de divertimento dos negros, é o que hoje conhecemos como SAMBA DE RODA. Longe de ser, apenas, um divertimento de negros, é uma das formas de cultuar seus santos protetores, orixás sincretizados pelos santos católicos. Indispensável nessas festividades, ele se apresenta em toda sua exuberância de extrato bantu como formador de boa parte da cultura afro-brasileira. Segundo pesquisa do IPHAN – Samba de Roda do Recôncavo Baiano, podemos estabelecer dois grandes tipos. O nativo mais recorrente em todo o Recôncavo, chamado samba corrido; e o samba chula, que é o tipo que se encontra na região de Santo Amaro e municípios vizinhos, e ainda entre eles podem ocorrer pequenas variações.



Por Airton Santos

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